Setor de ferrovias deve ser o primeiro a captar financiamento no mercado de títulos verdes

O setor de ferrovias será o primeiro no cronograma de concessões do governo federal com a opção de captar financiamento no mercado de green bonds , os chamados títulos verdes. Um acordo assinado em Nova York na semana passada pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, com a Climate Bonds Initiative (CBI, na sigla em inglês) vai viabilizar o primeiro green bond governamental feito no mundo, segundo Thatyanne Gasparotto, diretora para América Latina da certificadora internacional de projetos ambientalmente sustentáveis.

Um selo verde conferido a projetos que serão concedidos à iniciativa privada ampliará oportunidades de crédito. Os primeiros projetos devem sair no início de 2020.

– Temos que ter projetos sustentáveis. Alguns que se destaquem pela substituição de carbono são muito elegíveis para esses títulos verdes. É o caso das ferrovias, que tiram muitos caminhões das rodovias, eliminando emissão de carbono. Dar esse carimbo a esses projetos é mostrar para investidores que já têm essa preocupação com responsabilidade ambiental que o projeto é interessante – disse Freitas na quarta-feira, após participar da cerimônia oficial de reabertura da pista principal do Aeroporto Santos Dumont, no Rio.

Preocupação crescente

Green bonds são títulos emitidos com o objetivo de captar recursos para investimentos em projetos com impacto socioambiental positivo, incentivando a mitigação de efeitos de mudanças climáticas.

Segundo Freitas, o foco inicial do governo será a certificação dos projetos de ferrovias e, posteriormente, portos, aeroportos e rodovias que compõem a carteira de concessões do governo. A certificação teria impacto ainda nas metas do país de redução de emissões previstas no Acordo de Paris, disse o ministro.

No momento em que a política ambiental do governo Bolsonaro sofre críticas internacionais, principalmente por causa das queimadas na Amazônia, ele reconheceu que é crescente a preocupação dos investidores com o tema:

– Investidores institucionais estratégicos vão, cada vez mais, ter essa preocupação. E nós não estamos adormecidos para essa tendência. Ao contrário, estamos muito atentos.

Freitas disse que é difícil prever quanto os títulos podem trazer em financiamentos ao país. Mas frisou que o total de investimentos em infraestrutura pode saltar de R$ 11 bilhões em 2019 para R$ 50 bilhões em 2020.

Hidrovias na lista

A CBI vai avaliar as concessões de ferrovias planejadas pelo governo, que somam perto de R$ 16 bilhões em investimentos nos projetos Ferrogrão, Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico). Com isso, vai estimar que etapas (e quantos projetos) poderão justificar emissões de green bonds .

O planejamento é que, até o começo de 2020, a avaliação dos três projetos esteja concluída. O passo seguinte ainda não foi definido, mas são consideradas a renovação de ferrovias (R$ 46 bilhões) e a concessão de hidrovias.

De acordo com Thatyanne, da CBI, o setor de ferrovias foi escolhido por ser o mais diretamente associado à redução de emissões de carbono, sobretudo no escoamento de commodities. O modal tem pegada ecológica mais limpa que rodovias e aviões.

Até hoje, já foram emitidos US$ 5,1 bilhões (cerca de R$ 21 bilhões, em cotação de hoje) em títulos verdes no Brasil, ou 41% de todas as emissões da América Latina, segundo dados da CBI. Este ano, já foi mais US$ 1 bilhão.

– Esse programa tem o potencial de multiplicar em algumas vezes o estoque de green bonds já emitidos pelo Brasil – disse a diretora da CBI. – Nunca tivemos tanto capital disponível, e hoje há mais investidores em busca de papéis verdes do que dos tradicionais.

Ela avalia que, depois da crise da Amazônia, o programa pode ajudar na recuperação da imagem do Brasil:

– Não é a primeira vez que o Brasil passa por isso, mas o fato é que está sob os holofotes do mundo. Os green bonds são uma oportunidade de o setor privado brasileiro mostrar na prática que financia projetos sustentáveis.

Fonte: O Globo

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